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Observar os sentidos da saúde na imprensa é preciso, por Umberto Trigueiros

Em tempos em que a grande mídia no Brasil se erigiu, em virtude da sua enorme concentração e influência, em sujeito decisivo da história, em personagem central e claramente partidário na ação política, construindo no cotidiano os sentidos, discursos, “realidades” e interpretações que favorecem os seus interesses e os dos grupos econômicos que ela representa e que lhe dão sustentação, torna-se fundamental para os que trabalham com políticas públicas e também para a academia observar convenientemente essas circunstâncias e desenhar um conhecimento estruturado sobre esse fenômeno.

 

Esse contexto em que se move e atua a grande mídia por um lado, e os interesses da sociedade de outro, despertaram atenção de agentes de políticas públicas, de estudiosos das mesmas e de estudos acadêmicos sobre o campo da comunicação e da informação.

 

Um dos resultados desta conjugação de fatores foi a proliferação de inúmeras iniciativas de observatórios sobre variados temas, tais como políticas públicas, informação em saúde, campanhas de saúde pública, saúde no legislativo, de ciência e tecnologia e inovação, mas principalmente os relacionados ao desempenho da mídia nos seus diferentes formatos, sendo um dos mais longevos e permanente deles o Observatório da Imprensa exibido na TV Brasil.

 

Observatórios são dispositivos de produção sistemática de dados, em geral com a finalidade de oferecer elementos de gestão dos bens públicos e também para produzir conhecimento e análises sobre fenômenos de importância social e política. Os observatórios, na maior parte dos casos, estão associados à noção de controle social e fortalecem com dados e informações relevantes a possibilidade desse controle. Assim, a proposta que levou à estruturação do Observatório Saúde na Mídia está vinculada a essa ideia e, mais que isso, ao entendimento de que os dispositivos de controle e participação social são estruturantes do projeto do SUS.

 

A necessidade de um observatório sobre saúde na mídia começou a desenhar-se entre 2003 e 2007 quando pesquisadores do Laboratório de Comunicação e Saúde do Icict/Fiocruz desenvolveram um projeto de pesquisa denominado Avaliação da Comunicação na Prevenção da Dengue, tendo como um dos subprojetos o desenvolvimento de um observatório específico voltado para a mídia e saúde tomando como experimentação o tema dengue. O projeto desenvolveu-se a partir de um monitoramento sistemático e diário de três órgãos de imprensa escrita do Rio de Janeiro e de três edições de telejornais identificados como os de maior repercussão junto à população. Foram recolhidas e analisadas matérias sobre o tema dengue e produziu-se boletins com essas análises, compartilhando-as com a comunidade interessada no controle da dengue, primeiro em versão impressa distribuída para uma mala direta da Rede Dengue Rio de Janeiro e logo uma versão on-line no Portal Icict/Fiocruz.

 

Validada essa experiência, o projeto foi encampado pela Vice Diretoria de Informação e Comunicação do Icict e pela Direção da unidade e passou a trabalhar-se, a partir de 2008, na proposta de construção do Observatório Saúde na Midia com o escopo que ele está sendo apresentado hoje através desse sitio visível nos portais do Icict e da Fiocruz. Posteriormente, em 2009/2010, em parceria firmada entre o Icict/Fiocruz e a Secretaria de Vigilância em Saúde – SVS/MS, o Observatório realizou o monitoramento de órgãos de imprensa e produziu relatórios acerca da abordagem da mídia sobre agravos específicos: dengue e o H1N1.

 

A proposta do Observatório Saúde na Midia se dedica sobretudo a uma vigilância crítica e ao desenvolvimento de um conhecimento aprofundado sobre os modos pelos quais os meios de comunicação constituem os sentidos públicos sobre a saúde. Conhecimento que interessa a todo o setor saúde, ao SUS em particular e de maneira especial ao campo da comunicação e saúde, em suas dimensões de ensino, pesquisa e serviços. O Observatório pretende também contribuir para a luta pela democratização da comunicação na sociedade em geral e na saúde em particular, enxergando-a como um direito da cidadania. Para alcançar esses objetivos maiores o Observatório realiza as atividades de monitoramento de alguns veículos de comunicação de grande circulação na sua abordagem do tema saúde, analisa os modos pelos quais esses meios constroem discursivamente os sentidos da saúde em geral e do SUS em particular. Além disso, faz circular por diversos modos para pesquisadores, gestores, profissionais de saúde e população, os resultados de suas análises.

 

Essa fase do Observatório, com o lançamento do seu sitio permanente na internet, hospedado nos portais do Icict e da Fiocruz, inaugura um novo momento de difusão, de transparência, de alcance do projeto e de interação. O caminho até aqui foi complexo e repleto de decisões que tiveram que ser muito estudadas, debatidas e sobretudo criteriosas, tais como a definição do conceito de observatório, a metodologia a ser usada para a análise, o modo de operação para a coleta de dados, com todas as dificuldades do próprio trabalho e da efetivação de contratos de serviços, assinaturas de jornais etc, a digitalização meticulosa e cuidadosa dos materiais a criação de base digital para organização, classificação e recuperação do acervo coletado"   em detalhe da arquitetura do Observatório, do seu sitio, das suas funcionalidades e aplicativos.

 

Enfim, existimos e “existirmos, a que será que se destina...”. Responderemos nós, pesquisadores, operadores e mantenedores do Observatório, mas sobretudo seus usuários: gestores, profissionais de saúde, jornalistas, estudantes, público em geral.

*Umberto Trigueiros Lima é diretor do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz.

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