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Medir a mídia com a régua da academia faz sentido?

Desde o ano de 2000, quando ingressei no mestrado em Comunicação Social na Universidade Metodista de São Paulo, tenho acompanhado e contribuído no campo de pesquisa da Comunicação para a Saúde. Participei dos congressos nacionais de Comunicação e Saúde (Comsaúde) idealizados pelo Prof. Dr. Isaac Epstein, tendo as publicações dos anais desses congressos como material de pesquisa em meu doutorado, também naquela instituição. Em paralelo, desde 2003, acompanho e sou nucleado no grupo de trabalho que também pesquisa Comunicação e Saúde na Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação, tendo sido, no congresso deste ano (2015), na ECA-USP, escolhido como vice-coordenador do GT, para auxiliar a pesquisadora da Fiocruz, Kátia Lerner (nova coordenadora), no próximo biênio de atividades. Além dessas duas experiências, transitei também pelos grupos de estudo de Comunicação e Saúde da ALAIC (Associação Latinoamericana de Investigadores da Comunicação) e da ABRASCO (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), podendo acompanhar o perfil das pesquisas acadêmicas desenvolvidas em todos esses espaços de debate. 

 

Pois bem, relatado meu local de fala, por vezes tive a oportunidade de reunir, no formato de artigo científico, o estado da arte da produção acadêmica nesse locus coletivo de produção de conhecimento para tentar identificar as temáticas mais recorrentes, os pesquisadores mais atuantes, as metodologias mais utilizadas, enfim, o cenário de pesquisa da Comunicação para a Saúde. Não é difícil verificar que temos construído importantes contribuições no que tange à análise da comunicação em várias frentes: comunicação médico-paciente, políticas públicas, comunicação de riscos, prevenção de doenças e promoção da saúde, enfim, um amplo leque de temas recorrentes que os pesquisadores focam seus trabalhos – alguns como temas de mestrado ou doutorado – transformando-os em artigos científicos para a academia.

 

Um formato que pude observar com frequência é a utilização do método de análise de conteúdo, geralmente tendo a teórica Laurence Bardin como referência, em que os pesquisadores elegem um tema – normalmente uma doença – e verificam como essa é tratada em diversos veículos (impressos, de rádio e TV ou, mais recentemente, propagados pela Internet). Com raras exceções, as considerações finais desses trabalhos apontam para conselhos que, a meu ver, beiram o senso comum e que pouco contribuem para a mudança do cenário, com visões simplistas do problema ou com soluções inexequíveis. No mais, como as pesquisas usam veículos específicos e em um recorte temporal curto, normalmente seus resultados não espelham uma realidade ampliada, mas ficam apenas no regional ou local, sem possibilidade de ampliar as descobertas para outros veículos com realidades tão diferentes. Talvez investir em pesquisas mais representativas, com mais pesquisadores e aumentando o leque de veículos em praças diferentes possa ser uma maneira de potencializar a qualidade das informações.

 

Sem citar trabalhos específicos para não ser indelicado, mas estudar que determinada doença no jornal X ou Y recebe pouca atenção da mídia, que as fontes entrevistadas não representam autoridades acadêmicas do assunto (há alguns pesquisadores que defendem entrevistar apenas quem tem currículo Lattes...) ou que os textos não ressaltam a importância da prevenção da doença, mas apenas seu tratamento, é querer jogar futebol usando as regras do basquete. Ao levantar os critérios de noticiabilidade (ou valor-notícia) adotados pela mídia para a geração de notícias podemos verificar que os ingredientes utilizados pelos jornalistas para a construção do texto são diferentes dos daqueles que os pesquisadores preconizam como importantes. Aqui não está em jogo se estão certos ou errados: são apenas diferentes.

 

Tempo do pesquisador x tempo do jornalista
Na década passada, a assessoria de Comunicação da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), teve a feliz ideia de lançar um manual de conduta aos profissionais de saúde – denominado “Corra, que a imprensa vem aí (um guia de sobrevivência)” para que esses tivessem pequenas noções de como lidar com os jornalistas quando falassem em nome daquela instituição. Algumas imagens do manual poderiam ser aplicadas para contrapor às considerações finais apontadas em alguns artigos estudados e escolhemos três para ilustrar nosso artigo.

 

Na figura 1, podemos verificar que o tempo do jornalista – sempre correndo contra o relógio e necessitando de respostas para ontem – é um fator impeditivo para que as sugestões dadas por alguns pesquisadores possam ser incorporadas ao dia-a-dia das redações. Pedir aos colegas de redação que busquem fontes mais qualificadas, que não sejam apenas médicos, mas pesquisadores renomados soa irreal para quem conhece o que é o fechamento de uma edição de jornal: simplesmente não há tempo para buscar a melhor fonte, mas sim aquela que está disposta a responder no tempo no jornalista.

 


Figura 1: tempos diferentes

O despreparo dos profissionais de imprensa é outra realidade que parece ser ignorada pelos pesquisadores. Quem está presente no cotidiano das redações sabe que os jornalistas são grandes especialistas em generalidades; um dia cobrem editorias mais gerais e outras mais especializadas e isso é bem ilustrado na figura 2. Por ser a área da saúde um segmento que requer preparo do profissional, exigir que esse entenda o assunto em profundidade também é uma sugestão que pouco se aplica. Alguns pesquisadores que sabem bem como funciona o Sistema Único de Saúde (SUS) apontam que os jornalistas devem conhecer mais sobre esse sistema para que, nas notícias, ressaltem mais os aspectos positivos da saúde. A realidade das redações onde vale a máxima do “bad news are good news” também desmonta com facilidade essa sugestão dos acadêmicos. Notícia boa não vende, simples assim.

 


Figura 2: conhecimento geral ou específico?
 

Por fim, a linguagem hermética dos profissionais de saúde, seja em entrevistas, seja nos textos científicos, por vezes pode ser um empecilho aos jornalistas, como mostra a figura 3. A história de “ninguém escreve bem sobre aquilo que desconhece” é outra realidade que parece ser ignorada pelos pesquisadores. Alguns textos ou falas de profissionais podem representar um verdadeiro ruído de comunicação em momentos de entrevista ou preparação para matérias relacionadas à saúde. Se de um lado os profissionais de redação podem ser responsabilizados pela falta de conteúdo específico sobre o tema, os profissionais de saúde que se dispõem a falar com os jornalistas devem levar em conta que não estão lidando com os pares e manter a linguagem técnica apenas joga contra no momento das entrevistas. 

 


Figura 3: português ou mediquês?

Passando a régua
A proposta desse artigo não é criticar as considerações finais de alguns trabalhos científicos daqueles que pesquisam Comunicação para Saúde. O que pretendo é alertar que não há como medir o texto jornalístico usando a régua da academia. São doenças diferentes que exigem remédios também diferentes. É claro que os jornalistas de redação precisam se qualificar e também parece que todos concordam que o que se produz hoje na mídia deixa a desejar em matéria de qualidade. Entretanto, apontar soluções simplistas aos colegas de redação sobre como encontrar uma fonte qualificada ou como exaltar mais os aspectos educativos ou positivos da saúde podem ser importantes para uma realidade idealizada, que difere – em muito – do mundo real da redação. Ao persistir em pesquisas com esse desenho, ou seja, estudar como a mídia trabalha determinada doença e querer sugerir que os jornalistas estão errados porque deixam de lado doenças ainda sem prevenção, ou se pautam apenas pela medicalização (eterna teoria da conspiração das empresas farmacêuticas) é mostrar desconhecimento do funcionamento de uma redação. O meio termo sempre é a saída. Está aí mais abscesso a ser drenado pela academia. 

 Fonte das ilustrações: Assessoria de Imprensa Unifesp

Arquimedes Pessoni é Doutor em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo e pós-doutor pela Faculdade de Medicina do ABC em educação e saúde.
 

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