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A mídia pode produzir novas sentidos de saúde e masculinidade?

No início de abril deste ano, o ator Dwayne Johnson, mais conhecido como ‘The Rock’, cujo personagens dos filmes hollywoodianos em que atua frequentemente são homens fortes e corajosos, revelou publicamente em entrevista a um jornal britânico as lutas que trava contra a depressão desde a adolescência, quando presenciou tentativas de suicídio da mãe. 
Nas redes sociais, o ator deu conselhos a outros homens que enfrentam a depressão e declarou que demorou muito tempo para se abrir, dizendo que os homens têm a tendência de guardar tudo. Finaliza dizendo ao público masculino: “ vocês não estão sozinhos”.  
 Relatos de celebridades masculinas sobre os infortúnios da vida, como a experiência de uma doença, têm atravessado constantemente os conteúdos midiáticos, o que nos faz questionar: a linguagem terapêutica da contemporaneidade, em circulação midiática, produz novos sentidos de saúde e masculinidade? 
Partimos do pressuposto de que os testemunhos e os relatos das experiências pessoais se caracterizam como mais verdadeiros na contemporaneidade, em detrimento a um conhecimento originado por dados ou fatos objetivos. No contemporâneo, entendemos também que a construção da subjetividade passa por ideais de superação, daí a sensação de um aumento na mídia de relatos de experiências da doença (infortúnios da vida), acompanhados com esses ideais, de que é preciso vencer esse momento ruim. Para Sacramento esta narrativa que atravessa a forma como nos constituímos sujeito na contemporaneidade se caracteriza pelo ethos terapêutico. 

A narrativa terapêutica contemporânea 
O ethos terapêutico realça esta necessidade de autorrealização no mundo, pois é “ caracterizado por uma preocupação excessiva com a saúde, psíquica e física” (SACRAMENTO, 2015, p.111). Para o autor, o ethos terapêutico se apresenta como um dispositivo da cultura que exige de os indivíduos alcançarem formas de bem-estar e felicidade plena como parte de um processo de autorrealização.
Nesse sentido, o relato midiático da experiência com a doença se desloca de uma concepção de doença como um enfraquecimento do indivíduo e passa a se configurar como um ponto zero no qual o sujeito é convocado a rever seus hábitos e seu estilo de vida, encarando a doença como algo a ser superado para a conquista da felicidade plena. 
A representação do câncer na mídia contemporânea traz essas questões com bastante intensidade, não faltando exemplos de celebridades masculinas que testemunharam midiaticamente sua experiência e superação do câncer, tais como Reinaldo Reynaldo Gianecchini e Edson Celulari. Nota-se então que a experiência de adoecimento é moldada pelo gerenciamento do sofrimento e da superação de si a partir da circulação e das apropriações sociais do ethos terapêutico, e não mais como anulação do sujeito ou algo que deve ser evitado comentar. 

Homem, saúde e mídia
Em relação ao gênero masculino, observamos uma transformação do valor de adoecer e novas atribuições ao cuidado, principalmente do homem. Culturalmente, o gênero masculino é valorizado por sua qualidade de vigor físico, e o cuidado com a saúde tem pouco valor para os que seguem à risca o ideal machista de masculinidade. Isso proporciona diferentes abordagens e estratégias das políticas públicas para que os homens acessem os serviços de saúde. Nesse contexto, “há de certa forma, um controle do corpo masculino. Um controle ao inverso das mulheres, em que não se valoriza a possiblidade de se cuidar e sim a não necessidade do cuidado contínuo”. (SCHRAIBER; FIGUEIREDO, p. 34, 2011).
     A promoção, a prevenção e o cuidado de si não são valorizados como questão masculina na perspectiva dos serviços de saúde. No entanto, as narrativas terapêuticas contemporâneas fundamentadas numa concepção de saúde baseada no estilo de vida e a boa forma amplificam a voz masculina no relato do enfrentamento e superação da doença na mídia. Assim sendo, a mídia pode ser um dispositivo que compartilha novos sentidos sobre saúde e masculinidade.

Referências 

SACRAMENTO, Igor. Tornando a dor visível: o ethos terapêutico em narrativas testemunhais de celebridades sobre o câncer. Ciberlegenda (UFF. Online), v. 32, p. 109-122, 2015.

SCHRAIBER, L.B.; FIGUEIREDO, W.S. Integralidade em saúde e os homens na perspectiva relacional de gênero. In: GOMES, R., org. Saúde do homem em debate [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2011.

 

Roberto Abib

Jornalista na seção Rio de Janeiro do Ministério da Saúde, especialista em Comunicação e Saúde pela Fiocruz e mestrando em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Jornalista na seção Rio de Janeiro do Ministério da Saúde, especialista em Comunicação e Saúde pela Fiocruz e mestrando em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

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