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Mídia e Ministério da Saúde se calam diante do uso abusivo de agrotóxicos no Brasil

O Brasil é o país mais permissivo e o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. O uso abusivo de agrotóxicos é responsável pelo aumento do número de pessoas com câncer e outras graves doenças degenerativas. Embora os dados sejam alarmantes, o que preocupa é o silenciamento por parte da mídia e também do Ministério da Saúde diante do tema. 

 

O documentário “O veneno está na Mesa”, de Sílvio Tendler, inspirou-nos a uma pesquisa sobre a representação do tema agrotóxicos na mídia. A análise foi realizada durante o mês de junho de 2016, do dia 1º ao dia 30, nas capas do jornal Diário do Rio Doce (DRD), periódico de maior circulação em Governador Valadares/ MG e região do leste mineiro e na página do Facebook do Ministério da Saúde. Analisou-se o conteúdo das matérias de capa do referido jornal e os posts do Ministério da Saúde. 

 

A análise na capa do jornal se justifica por considerar que se trata de um espaço nobre no jornalismo impresso: as matérias que saem na capa são classificadas como assuntos relevantes. A página do Facebook do Ministério da Saúde foi escolhida por ser considerada como eficiente canal de comunicação do governo com o usuário. De acordo com o site do Ministério da Saúde, “as redes sociais do MS atuam no diálogo e na aproximação do governo federal com a sociedade”.

 

 Segundo a teoria do agendamento Agenda Setting, a mídia é responsável por apresentar temas à sociedade e fazê-la refletir sobre o assunto, por isso julga-se de monumental relevância a visibilidade do tema agrotóxicos nos meios de comunicação. Em analogia à obra Primavera Silenciosa,de Rachel Carson (lançada em 1962), pode-se afirmar que  o “outono foi silencioso” no que se refere às informações pertinentes ao consumo de agrotóxicos no Brasil. 

 

O conteúdo de capa do jornal Diário do Rio Doce, em sua maioria versa sobre a operação Mar de Lama, deflagrada em abril de 2016, e que tem rendido muitas matérias. Trata-se de uma ação da Polícia Federal em parceria com o Ministério Público para averiguar denúncias de corrupção no município de Governador Valadares, MG. Além desse tema, o esporte, mais precisamente o futebol mineiro ocupa um nobre espaço na capa do jornal, assim como matérias relacionadas à violência.

 

Já na página do Facebook do Ministério da Saúde, os assuntos com maior evidência durante o mês de junho foram: Dengue e Zika Vírus, somando um total de 25 postagens, seguido do tema Doação de Sangue, com dez posts. Deve-se considerar que o mês de junho é denominado “junho vermelho” visto que esse mês é dedicado às campanhas de doação de sangue. 

 

Embora no dia 05 de junho seja comemorado o dia Mundial do Meio Ambiente, houve apenas um post no dia 1º de junho sobre este tema e em momento algum se mencionou a questão dos impactos do uso abusivo de agrotóxicos no meio ambiente. Da mesma forma,  no dia 22 de junho, o Ministério da Saúde fez uma postagem sobre o Guia Alimentar para a População Brasileira. O conteúdo da publicação é recheado de conselhos sobre alimentação saudável, dá conta de que o consumo de frutas e verduras faz bem à saúde, mas não alerta o leitor sobre a qualidade das frutas a serem consumidas, conforme adverte o documentário O veneno está na mesa II, lançado em 2014. A laranja cultivada com Triclorfon, pode causar câncer, gerar fetos anormais, provocar o aborto e a infertilidade. A banana cultivada com Triclorfon pode causar câncer e má formação fetal. A banana cultivada com carbofurano, além de causar câncer, estimula a puberdade precoce, a infertilidade e o aborto. Assim como as hortaliças são muito recomendadas para compor um prato saudável e que supostamente ajudariam a combater o câncer, o diabetes e controlar a pressão arterial, porém não se adverte que as hortaliças cultivadas com acefato podem causar má formação fetal, provocar o câncer, o aborto, a infertilidade e intoxicação aguda. 

 

Enquanto a mídia   se cala diante dessa perversa indústria do crime, a sociedade brasileira continua a degustar passivamente cálices de veneno à sombra de um pseudodiscurso de que frutas e verduras fazem bem à saúde. A pergunta que se faz é: qual fruta e qual verdura verdadeiramente podem fazer bem à saúde? Uma resposta é certa: frutas e verduras financiadas pela indústria do agrotóxico, ao invés de nutrir fazem mal à saúde. Syngenta, Bayer, Basf, Dow, Dupont, são responsáveis pelos venenos que estão provocando sérias doenças e matando o povo brasileiro, e sobretudo os trabalhadores rurais que sobrevivem em territórios underground, são reféns de trabalhos em regime de semiescravidão expostos a produtos de alta periculosidade para a saúde.

 

 Por que a mídia pouco questiona e pouco denuncia?  A resposta é simples! É porque existem muitos interesses econômicos que movem essas indústrias, as quais são responsáveis por financiarem anúncios nas grandes corporações midiáticas assim como as campanhas dos representantes políticos. Já que eles são cúmplices, fazem o pacto do silêncio. A indústria que fabrica venenos altamente nocivos à saúde, vem com um discurso de cura, pois é a mesma responsável pela fabricação de medicamentos. O Ministério da Saúde que apresenta um discurso benevolente focado na cura, se nega a trabalhar com uma perspectiva da promoção da saúde e prevenção de doenças. A mídia que deveria informar está negando ao cidadão o direito de saber. 

 

No mês em que se comemora o dia internacional do meio ambiente, não falar dos desastres ecológicos e humanos provocados pela indústria do agrotóxico é no mínimo uma atitude negligente tanto por parte do jornal Diário do Rio Doce quanto pelo Ministério da Saúde em sua página no Facebook. 

 

O propósito deste ensaio é convidar o leitor a pensar sobre a importância da Comunicação na promoção da saúde. De acordo com Luiz Ramiro Beltrán, referindo-se à Carta de Otawa: Documento elaborado em 1986, na 1ª. Conferência Internacional sobre promoção da saúde, realizada em Otawa, no Canadá. “A promoção da saúde deve envolver a paz, a moradia, a educação, a alimentação, a renda, um ecossistema estável, os recursos sustentáveis, a justiça social e a equidade” . O documento destacou também que a força motriz da promoção da saúde deve ser a participação comunitária na tomada de decisões para o planejamento e ações, e a Comunicação tem importância decisiva para sua execução. 

 

O convite que se faz urgentemente é que tenhamos novas perspectivas de olhar para os interesses das corporações midiáticas, novos olhares sobre os discursos construídos pelas indústrias do agrotóxico, olhar atento sobre o que dizem os nossos representantes políticos. Novos olhares sobre a saúde pública brasileira. E quando a mídia se cala, devemos nos atentar para este silenciamento. 

 

 

Eliana Marcolino é doutora em Comunicação Social e pesquisadora em Comunicação, Saúde e Território na Universidade Vale do Rio Doce - Univale.

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