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Febre amarela midiática: uma breve reflexão sobre a doença como um produto da mídia

País tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, o Brasil também é o paraíso dos mosquitos, alguns dos quais de interesse sanitário, dada sua capacidade de transmitir doenças virais, as arboviroses. Entre eles, alguns velhos conhecidos da saúde pública brasileira, o Aedes aegypti, o Haemagogus e o Sabethes.  Estes dois são, desde 1942, os únicos transmissores da febre amarela no Brasil. O vírus amarílico silvestre circula numa extensa faixa do território nacional, que envolve a totalidade das regiões Norte e Centro-Oeste, avançando por grandes porções do Nordeste, Sul e Sudeste, notadamente nas chamadas fronteiras agrícolas – hoje, de acordo com o Ministério da Saúde, apenas a costa litorânea é classificada como livre da febre amarela. 

 

Nas últimas décadas, os epidemiologistas também perceberam que a cada 5 ou 7 anos a circulação viral nas áreas de transmissão é intensificada, provocando a chamada epizootia. Sua ocorrência é identificada através da morte de macacos, tratada pela área de vigilância ministerial como um evento-sentinela que desencadeia as ações de controle da expansão da doença. Isso porque durante uma epizootia é maior a probabilidade de ocorrência de febre amarela entre humanos que entram nessas áreas de circulação viral sem estar imunizados pela vacina – nestes casos, o homem é classificado como hospedeiro acidental. Daí a recomendação de vacinação de moradores e viajantes de áreas de risco de transmissão.  

 

No verão de 2007-2008, o Brasil vivia uma epizootia de febre amarela silvestre, exatamente sete anos depois de registrado o último evento desta natureza (no verão 2000-2001). Desde o início, o episódio foi classificado pela autoridade sanitária (Ministério e Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde) e parte da comunidade científica como dentro da normalidade epidemiológica.Apesar disso, a imprensa não especializada/generalista discordou. E, ancorada na lógica do risco , uma marca das sociedades atuais, a cobertura jornalística do evento produziu um fato social: uma epidemia de febre amarela urbana. 

 

Tomando-se a Folha de S.Paulo como exemplo, é possível dizer que o noticiário veiculado produziu uma epidemia de febre amarela urbana, ao deslocar o evento de sua forma silvestre, espacialmente restrita e de gravidade limitada, para a forma urbana, que produziu um sentido epidêmico da doença, potencialmente mais grave, se instalando como uma realidade no cotidiano da população de todas as regiões do Brasil, inclusive das áreas urbanas, em que não havia (e ainda não há) risco de transmissão da febre amarela.  

 

Desse modo, o noticiário provocou “um transbordamento da rede de sentidos” da epizootia da sua dimensão biomédica para a dimensão cotidiana, o que acabou por configurar a doença como um objeto específico e independente. A partir dessa perspectiva é possível dizer que a febre amarela 2007-2008 foi um produto da mídia – daí o uso da expressão “epidemia midiática” que dá título a este texto.Neste ponto, a questão que se impõe, então, é: como a mídia jornalística, apesar do discurso oficial e especializado em contrário, sedimentou a tese da urbanização da febre amarela? pela adoção de algumas estratégias discursivas epidêmicas, identificadas nos repertórios que circularam nas matérias. 

 

Na primeira, que se pode nomear como a “supremacia temática”, fica evidente que a febre amarela ocupou um grande espaço do jornal, por várias edições consecutivas. Destacam-se as estratégias da “doença fora de controle”, cujo foco narrativo é o “crescimento progressivo” de casos suspeitos, e do “inimigo letal”, centrado na saliência das taxas de letalidade da doença, privilegiando sintomas e tratamento. Articuladas, essas duas estratégias discursivas sustentaram as chamadas de capa sobre a febre amarela, quando o evento ganhou status de tema importante e “quente” no horizonte de atualidade jornalística. No caso da Folha, foram 15 chamadas, das quais 12 publicadas quase consecutivamente, em que se destacaram termos que explicitavam sentidos de descontrole e letalidade – nos dias 11, 15, 16, 17 e 20 de janeiro, respectivamente, “primeira morte”; “2ª morte”; “5ª morte”; “7 mortes”; “8 o total de mortes”; “9ª morte”.  

 

Outras duas estratégias discursivas influenciaram a produção da epidemia midiática. Uma deu-se pela não explicitação dos dois ciclos da febre amarela (um silvestre e outro urbano). É possível supor que ao não evidenciar (nem nomear) as duas formas de manifestação e suas respectivas áreas de ocorrência a narrativa jornalística produziu um sentido de risco de “transmissão generalizada” da doença, dificultando para o público leitor a demarcaçãoterritorial da doença. Assim, a referência à doença sem a indicação (nomeação) de que se tratava do ciclo silvestre transformou as duas formas (silvestre e urbana) em um mesmo e único evento. Somada à ênfase dos textos no ciclo urbano (uma tese permanente em boa parte da cobertura), a narrativa formou um pacote interpretativo que pode ter levado o leitor da área urbana, público alvo da edição da Folha de S.Paulo analisada, a sentir-se diante de um evento prestes a eclodir na porta de sua casa ainda que ele estivesse situado a centenas de quilômetros das áreas de risco de transmissão da doença.

 

A outra estratégia discursiva epidêmica foi assentada nas noções de efeitos cumulativos. A mesma perspectiva narrativa (a tese de possível urbanização da doença) foi adotada por diferentes editorias (Capa, Opinião, Brasil, Ciência, Dinheiro, Cotidiano, Esporte, Ilustrada e Ombudsman), invadindo deste modo todos os âmbitos do cotidiano dos leitores do jornal (efeito de onipresença). Ao mesmo tempo, o tema foi repetido concomitante e semelhantemente por diferentes veículos de imprensa (efeitos de acumulação e consonância).

 

A fabulação da vacina e a morte como desfecho 

Na fábula jornalística, a vacina se tornou o único recurso terapêutico capaz de proteger a população do “inimigo letal”, a doença, sobretudo na recomendação do uso irrestrito da vacina, discurso legitimado por fontes jornalísticas favoráveis à tese de urbanização da febre amarela, e na omissão dos riscos de seus efeitos adversos.

 

No período da chamada epidemia midiática, entre o final de dezembro de 2007 (quando foram publicadas as primeiras notícias sobre a febre amarela) e 22 de fevereiro de 2008 (esgotamento da pauta), houve um aumento exponencial da demanda vacinal, expresso no número de doses distribuídas aos Estados e Distrito Federal, mais de 13 milhões em pouco menos de dois meses . A corrida pela vacina foi particularmente intensa no estado de São Paulo, onde até 2008 dois terços do território era indene para o vírus amarílico. No período analisado foram registrados no país quatro óbitos por febre amarela vacinal (dois por doença neurológica e dois por doença viscerotrópica, a forma mais rara e grave), todos em território paulista (dois na capital e um na cidade de Embu-Guaçu, áreas até hoje livres do vírus, e um no município de Rincão, região de Araraquara, incluído pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo como área de risco de transmissão viral somente em janeiro de 2009). O Estado também foi vice-campeão em doses aplicadas (2.440.560), atrás apenas de Goiás (2.784.332), cuja totalidade do território é endêmica desde o início da década de 2000, e quase 1 milhão a mais do que o DF (1.481.448), onde teve início a cobertura jornalística (a partir de uma nota técnica divulgada pela Secretaria de Saúde, em meados de dezembro de 2007). Na capital paulista foram aplicadas 428.337 doses de vacina em 2008, contra 79.666 em 2007 e 121.031, 2009. O Estado também registrou o maior número de casos de reações adversas no país: 187 eventos pós-vacinais, 81 a mais do que Goiás. 

 

Dado que não houve qualquer evento epidemiológico que justificasse o aumento da demanda vacinal, é possível inferir que a cobertura jornalística foi o fato social que impulsionou este fenômeno. Essa constatação demanda uma reflexão crítica acerca do papel do jornalismo generalista/não especializado no campo da saúde que considere o modo pelo qual os sentidos midiatizados dos processos saúde-doença repercutem no cotidiano. Como um produtor poderoso de significação e construtor de realidades sociais, o jornalismo, em todas as suas dimensões, inclusive ética, deve ter sempre em perspectiva as complexidades dos processos saúde-doença, bem como as consequências dos discursos que produz na esfera pública.

 

Cláudia Malinverni é jornalista e doutora em ciências pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. 
 

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