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Boatos e fakenews: desafio da era digital

A ampla circulação de boatos e notícias falsas parece se consolidar como uma marca dos tempos em que vivemos. No campo da saúde, de forma recorrente boatos novos (e nem tão novos assim) levam preocupação à população e dão trabalho às autoridades de saúde. Apenas nos últimos anos registramos ondas de boatos associadas à epidemias de gripe H1N1, zika, febre amarela, à potencial emergência do vírus ebola, à ameaça de um surto de Influenza H3N2, à inclusão da vacina contra o HPV no calendário nacional de vacinação, entre outras. Por isso mesmo, fica evidente a necessidade de estudar e entender melhor a produção e circulação dessas narrativas, que se espalham especialmente pelas mídias digitais e redes sociais.  

 

Uma primeira observação é que nem todo boato que circula é falso ou, pelo menos, totalmente falso. Na verdade, mesmo as notícias falsas costumam agregar e referenciar elementos verdadeiros, preenchendo lacunas de informação de forma a dar um sentido específico ao todo produzido. Outra ponto fundamental é que, por mais que a notícia seja falsa, os efeitos que ela provoca são reais - por exemplo, se alguém deixa de se vacinar ou se um grupo começa a exterminar macacos numa região por conta de boatos, há efeitos mais ou menos diretos para a saúde individual e coletiva. Notícias falsas em saúde matam.

 

De forma geral, a circulação de boatos está diretamente relacionada a duas questões: o interesse social que uma situação desperta (se o fato não atrai a atenção da sociedade ou, pelo menos, de algum grupo, não despertará muitos boatos) e a existência de ambiguidade - criada não apenas por discrepâncias científicas, mas pelo fortalecimento de vozes e discursos de outros campos sobre a ciência e a saúde. Peguemos o exemplo dos grupos antivacinação, que crescem no Brasil: mesmo tratando-se de uma área com um século de estudos e de resultados inquestionáveis, a argumentação contra as vacinas passa por questionamentos pessoais de estilo de vida e de negociação de riscos (entre se vacinar e ficar doente), além de supostos efeitos colaterais. As pessoas tomam decisões baseadas em muitos fatores para além da ciência e, por isso, o fazer comunicativo na saúde pública nesse ambiente de boatos precisa de sensibilidade, atenção e capacidade de escuta que não se limitem à burocrática e fria comunicação técnica. 

Reprodução de arte publicada na Folha de São Paulo

 

Caso zika: um ambiente de incertezas

 

Na pesquisa recente que fizemos sobre a circulação de boatos no caso da zika, no verão de 2015/2016, três fatores se mostraram fundamentais para a criação de um ambiente de enorme ambiguidade e incerteza, que alimentou uma ampla circulação de boatos. Em primeiro lugar, havia um desconhecimento muito grande sobre a própria doença. A população queria respostas e orientações, porém para muitas questões a ciência só podia responder “ainda não sabemos”. Isso evidenciou a diferença de temporalidade entre a população ansiosa por orientações, a imprensa, ávida por novidades sobre aquela epidemia desconhecida, publicando todo tipo de conjectura sobre possíveis causas da microcefalia, e a ciência, que mesmo dedicando grandes esforços precisava cumprir o tempo de seus procedimentos para gerar conhecimento. 

 

Outro ponto importante era o ambiente político em que a epidemia ocorreu. Às vésperas do impeachment da presidente Dilma Rousseff, o que registramos foi um forte teor de crítica política nos comentários, destacando a incapacidade de um governo corrupto e incompetente, na opinião dos usuários, de lidar com a epidemia. Somado a isso, encontramos muitas reverberações de um discurso de descrédito da saúde pública e do SUS. Muitos dos comentários espalhados pelas redes sociais culpavam diretamente o governo pela epidemia e destacavam sua suposta incapacidade de lidar com ela.

 

Por fim, um terceiro fator que se destacou foi  a relação ambígua da população com a própria ciência. Embora a tendência fosse de valorização de instituições de pesquisa como a Fiocruz (totalmente desvinculada, vale destacar, da imagem depreciativa do SUS que também foi registrada), os boatos que tiveram maior circulação associaram a epidemia de microcefalia ao avanço da própria ciência. Essa relação dialoga com o risco inerentemente associado ao desenvolvimento científico no contexto da sociedade contemporâneo e nos remete à todo o imaginário associado à ficção científica. A explosão da microcefalia, longe de ser natural, seria associada à vacina contra a rubéola, ao mosquito “mutante”, ao uso de produtos químicos (“venenos”) como larvicidas contra a dengue. 

 

Somados a esses três fatores, duas perguntas aparecem na base de construção de todos os boatos que encontramos: por que a epidemia aconteceu só agora e nunca antes em outros locais, com situações de saúde ainda mais precárias, como a África?  E por que ela se concentrou no Nordeste e em Pernambuco em especial? Apesar de centrais, a recorrência desses dois questionamentos mostra como eles nunca foram bem explicados à população. Isso permite uma reflexão sobre a relação do boato com o silêncio. É na falta de respostas que prosperam outras narrativas, é o não dito que potencializa a circulação de outras alternativas. Esse processo nada tem a ver com capacidades intelectuais limitadas, mas com um processo coletivo de busca pela racionalização sobre determinada situação.

 

Fenômeno antigo, desafio contemporâneo

Vivemos numa era de incertezas. Contrariando as previsões mais otimistas, o avanço das novas tecnologias de comunicação e informação digitais, embora tenha ampliado a voz do cidadão comum, não nos levou a uma ciberdemocracia. Nos espaços de conversação da internet e das redes sociais, pouco hierarquizados, as opiniões dos indivíduos circulam como comentários quase que em pé de igualdade com o discurso técnico e científico. Diversas pesquisas já mostraram como os usuários têm uma tendência maior de compartilhar notícias com as quais já concordam ou que corroboram suas crenças. A ciência perde parte de seu estatuto de verdade e própria verdade se torna mais fluida, pós-verdade. Nesse contexto, embora os boatos sejam um fenômeno muito antigo da comunicação humana, aprender lidar com eles em nossa era digital se coloca cada vez mais como um desafio que requer o aprimoramento de nossas formas de comunicação, em especial no campo da saúde - desenvolvendo alternativas mais próximas e empáticas de participação e escuta.   

 

Marcelo Garcia é jornalista do Portal Fiocruz e possui mestrado em Informação e Comunicação em Saúde pelo Icict/Fiocruz.

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